Veja bemVocê tem tambémEssa mania burraDe ser e de pensarQue é legal não falar de políticaTer uma certa éticaE cantar qualquer coisa típicaColocando pelo mundoEsse sentimento profundoEstrábico-democráticoVeja bemVocê ainda temEssa mania burraDe ser e de pensarNo clichê de levar sempre vantagemTer uma boa imagemE usar de uma certa abordagemColocando pelo mundoEsse sentimento profundoEstrábico-democráticoE se por acaso alguém disser nãoCom certeza é contra a nação 
- João Ricardo (1949 - ) & Secos e Molhados

Veja bem
Você tem também
Essa mania burra
De ser e de pensar
Que é legal não falar de política
Ter uma certa ética
E cantar qualquer coisa típica
Colocando pelo mundo
Esse sentimento profundo
Estrábico-democrático
Veja bem
Você ainda tem
Essa mania burra
De ser e de pensar
No clichê de levar sempre vantagem
Ter uma boa imagem
E usar de uma certa abordagem
Colocando pelo mundo
Esse sentimento profundo
Estrábico-democrático
E se por acaso alguém disser não
Com certeza é contra a nação 

- João Ricardo (1949 - ) & Secos e Molhados

Nunca soube por que tanta gente teme o futuro.
Nunca vi o futuro matar ninguém,
Nunca vi o futuro roubar ninguém,
Nunca vi nada que tivesse acontecido no futuro.
Terrível é o passado ou, pior, o presente!

- Millôr Fernandes (1923 - 2012)

Aniversário é uma festa
Pra te lembrar
Do que resta.

- Millôr Fernandes (1923 - 2012)

“Não precisamos mais do seu serviço”,
Disseram-lhe os patrões, há dois meses e pouco.
E ele se foi, sob o calor abafadiço
Daquela tarde, murmurando como um louco: 
“Não precisamos mais do seu serviço”.

“Não precisamos mais do seu serviço…”
De tantos anos de trabalho era esse o troco 
Que recebia. Em vez de lucro, apenas isso… 
E ele consigo murmurava como um louco: 
“Não precisamos mais do seu serviço…”

“Não precisamos mais do seu serviço…”
Tornou-se bruto e respondia, a praga e a soco,
Aos filhos e à mulher, famintos no cortiço.
E após, chorava murmurando como um louco:
“Não precisamos mais do seu serviço…”

“Não precisamos mais do seu serviço…”
E ele saía a ver emprego, triste e mouco,
Nada! Nenhum!… E cabisbaixo, o olhar mortiço,
Ele voltava, murmurando como um louco:

“Não precisamos mais do seu serviço…”
“Não precisamos mais do seu serviço…” 
E cada vez sentia mais o cérebro oco.

Enforcou-se. Morreu. “Foi o diabo ou feitiço…”
E ele morreu murmurando, como um louco:
“Não precisamos mais do seu serviço…”

- Assis Garrido (1899 - 1969)

A vida só é possívelreinventada.Anda o sol pelas campinase passeia a mão douradapelas águas, pelas folhas…Ah! tudo bolhasque vem de fundas piscinasde ilusionismo… — mais nada.Mas a vida, a vida, a vida, a vida só é possívelreinventada.Vem a lua, vem, retiraas algemas dos meus braços.Projeto-me por espaçoscheios da tua Figura.Tudo mentira! Mentirada lua, na noite escura.Não te encontro, não te alcanço…Só — no tempo equilibrada, desprendo-me do balançoque além do tempo me leva.Só — na treva, fico: recebida e dada.Porque a vida, a vida, a vida, a vida só é possível reinventada.
- Cecília Meireles (1901 - 1964)

A vida só é possível
reinventada.

Anda o sol pelas campinas
e passeia a mão dourada
pelas águas, pelas folhas…
Ah! tudo bolhas
que vem de fundas piscinas
de ilusionismo… — mais nada.

Mas a vida, a vida, a vida, 
a vida só é possível
reinventada.

Vem a lua, vem, retira
as algemas dos meus braços.
Projeto-me por espaços
cheios da tua Figura.
Tudo mentira! Mentira
da lua, na noite escura.

Não te encontro, não te alcanço…
Só — no tempo equilibrada, 
desprendo-me do balanço
que além do tempo me leva.
Só — na treva, 
fico: recebida e dada.

Porque a vida, a vida, a vida, 
a vida só é possível 
reinventada.

- Cecília Meireles (1901 - 1964)


Nasce o sol e não dura mais que um dia.Depois da luz, se segue a noite escura,Em tristes sombras morre a formosura,Em contínuas tristezas a alegria.
Porém, se acaba o sol, porque nascia?Se é tão formosa a luz, porque não dura?Como a beleza assim se trasfigura?Como o gosto da pena assim se fia?
Mas no sol e na luz falta a firmeza;Na formosura, não se dê constânciaE, na alegria, sinta-se tristeza.
Começa o mundo, enfim pela ignorância,E tem qualquer dos bens por natureza:A firmeza somente na inconstância.
- Gregório de Matos (1636 - 1695)

Nasce o sol e não dura mais que um dia.
Depois da luz, se segue a noite escura,
Em tristes sombras morre a formosura,
Em contínuas tristezas a alegria.

Porém, se acaba o sol, porque nascia?
Se é tão formosa a luz, porque não dura?
Como a beleza assim se trasfigura?
Como o gosto da pena assim se fia?

Mas no sol e na luz falta a firmeza;
Na formosura, não se dê constância
E, na alegria, sinta-se tristeza.

Começa o mundo, enfim pela ignorância,
E tem qualquer dos bens por natureza:
A firmeza somente na inconstância.

- Gregório de Matos (1636 - 1695)